
Eu não vivo o futebol. Não vivo de futebol. Nem pelo futebol.
Ontem sim.
Ontem eu vivi. Acompanhada – a 270 km – por 44 mil torcedores e a tantas outras distâncias por outros milhões, eu respirei Grêmio. Senti Grêmio. Vivi Grêmio.
De um lado um camisa 10 com uma dezena de outros jogadores nas costas. E milhões de xingamentos no corpo. Do outro, 11 guerreiros. Como numa espécie de caça ao tesouro, a vitória, ontem, valia a vida.
Não era UFC porque era mais. Não pela pancadaria física, mas pela carga emocional que o duelo carregava. Não, caro leitor, não era o 4° lugar em busca de manter a vaga na Libertadores. Não era o 9° lugar em busca de uma posição na tabela. Não era, nem mesmo, a busca do tricolor para ultrapassar o colorado na
competição. Não, nem mesmo um Grenal, final de um campeonato Mundial, se tornaria mais importante do que ontem.
A epopéia a ser enfrentada. 90 minutos de busca. Busca? Por vingança, talvez. Por demonstração de qualidade, de poder. Busca por mostrar, ao Ronaldinho, o quanto ele deixou de ganhar. Não deixou de ganhar dinheiro, mas deixou de ganhar um time. Uma nação. Uma torcida que idolatra na mesma intensidade que rejeita.
Lotado, o Olímpico foi visto como o Coliseu. Os times, no entanto, não eram dois gladiadores. O Grêmio, tamanha sua fúria, era o leão, embalado pelos gritos ensurdecedores de uma Geral que, por quatro vezes, veio abaixo. Gritos esses que nem mesmo um tempo inteiro de derrota foi capaz de calar.
André Lima. Douglas. Mirales. Heróis de uma vitória massacrante. Não contra o Flamengo. Contra Ronaldo Assis Moreira. Contra àquele que recusou o berço. A virada do tricolor gaúcho sobre o carioca entra na história, não por ser mais um dos feitos inacreditáveis do Grêmio, mas ter sido uma surra.
A vaia que Ronaldinho disse ser nada veio das mesmas bocas cujo grito arrumou suas malas rumo ao Paris Saint Germain, em 2001. Ronaldinho, que deixou de ser gaúcho, sentiu o ódio na voz de um torcedor que não abandona o time, como que relatando a indignidade de um Assis Moreira pisar no relvado do Monumental.